Bedford


Vida farmacêutica por terras de Sua Majestade

Para terem verdadeira noção do trabalho farmacêutico em Inglaterra, preciso de vos explicar as várias funções das pessoas que trabalham numa farmácia e como funciona o processo de dispensa de uma receita. Vou apenas explicar as funções, não as qualificações de cada um.

A receita chega à farmácia, quer nas mãos do doente ou eletronicamente enviada pelo médico, e dá-se início ao processo de dispensa. Através do programa informático, é inserida na ficha do doente os dados da receita, os medicamentos que estão naquela receita com as respetivas quantidades e posologias. São impressas etiquetas com o nome do medicamento, a quantidade, a posologia, frases de aviso (por exemplo, "Este medicamento causa sonolência"), o nome do doente e a morada da farmácia que dispensou o medicamento. São também impressas etiquetas com possíveis interações e a morada e nome do doente para depois selar o saco de papel onde a medicação vai. 
Depois das etiquetas impressas e da receita imprimida, a medicação é recolhida e as respetivas etiquetas colocadas. Tanto receita como medicação e etiquetas para os sacos são colocados num pequeno cesto/tabuleiro e vão para o farmacêutico para serem conferidos. 
O farmacêutico faz dois tipos de conferência: clinical check & accuracy check. O Clinical Check (CC) é para certificar que aquela medicação é adequada para aquela pessoa e para a condição que foi prescrita; se algo não for adequado, fala-se com o doente ou então diretamente com o médico (sim, cá fala-se com os médicos para esclarecer dúvidas ou sugerir alternativas). O Accuracy Check (AC) é para certificar que o medicamento que está na receita é o que está à nossa frente e que está tudo de acordo com as indicações na receita. Tudo conferido, tudo certo, coloca-se no saco com a etiqueta com os dados do doente e está pronto a ser entregue com as respetivas indicações.


Cá temos o dispenser, o accuracy check technician, o healthcare adviser e o pharmacist. O Dispenser é quem prepara a medicação, basicamente, quem dispensa a receita. O Accuracy Check Technician (ACT) pode fazer o AC da receita, mas apenas se o farmacêutico já fez o CC previamente; o ACT é uma mais valia para a empresa porque alivia muito do trabalho do farmacêutico especialmente em farmácias em que existe um volume muito grande de receitas para conferir. O Healthcare Adviser faz todo um aconselhamento em OTCs, ou seja, aquele aconselhamento normal de medicação de venda livre para condições menores: azia, constipação, dores de cabeça, etc. O farmacêutico é o 'boss': confere receitas, conversa com os doentes, providencia serviços como revisão de medicação e consultas sobre utilização de novos medicamentos, vacina contra a gripe/meningite, faz consultas do viajante, aconselha, ajuda no treino de novos healthcare adviser e dispensers, mantém um controlo rígido nos psicotrópicos, supervisiona o consumo de metadona e buprenorfina (substituição de droga).

Sim, há uma pressão enorme no farmacêutico, especialmente em alcançar objetivos/targets. É esperado que o farmacêutico seja capaz de providenciar toda uma gama de serviços, ao mesmo tempo que mantém a conferência de receitas em dia, mantém a farmácia organizada, mantenha o conhecimento em dia e tenha tempo disponível para quem o chamar. Há dias em que trabalho das 8h30 às 18h30 e o dia não parece ser grande o suficiente. Há certas equipas que têm tanto stress e presssão em cima que isso transmite para quem está em redor; eu tento adotar outra perspetiva - tentar fazer o melhor posssível, no tempo disponível e há sempre o dia de amanhã. 

Até agora, posso dizer que estou a gostar do desafio. Estou a aprender formas novas de trabalhar, conhecer uma nova cultura, estou a ganhar mais, estou a crescer como farmacêutica, estou a ser respeitada no meu trabalho, estou a fazer aquilo para o qual estudei. Não estou simplesmente atrás de um balcão a vender caixinhas. Nem todos os dias são bons; há dias maus e há dias secantes, mas a maior parte dos dias sinto que o meu trabalho vale a pena. 

Eu não trabalho numa só farmácia. O meu trabalho é cobrir horários. Vou a diferentes farmácias durante a semana, mas o trabalho está tão formatado, tão bem estruturado que apesar de lidar com equipas diferentes quase todos os dias, todos temos um standard e guidelines e trabalhamos bem. Trabalho com pessoas impecáveis e a minha manager é fantástica; qualquer dúvida, qualquer problema seja no trabalho seja em aspetos mais pessoais como a procura de casa, ela está sempre disponível para me ajudar. Vou ter a minha avaliação daqui a dias e vamos discutir os próximos seis meses, o que quero alcançar e objetivos a longo prazo. 

Trabalhar em Inglaterra é algo que despoleta muitas dúvidas. Colegas de curso com quem nunca falei antes já me mandaram emails a pedir informações. Estou disponível para responder a qualquer questão. Basta mandar email que eu respondo assim que possível - ariadneminos.blog@gmail.com
Mega conselho: informem-se antes de tomarem a decisão de trabalhar fora do país, poupem muito e despachem-se. Com esta história do Brexit, não se sabe como vão ser as coisas daqui a um ano e pouco.

Há uma beleza escondida no Inverno que nem toda a gente é capaz de ver

Em Portugal chamavam-me maluca por gostar do frio. Vim para Inglaterra, questionam-me porque é que deixei o tempo soalheiro do Algarve pelos dias frios e cinzentos.
A verdade é que não me dou bem com o calor, mas sempre fui capaz de ver beleza na forma como a natureza se transforma no inverno. O que muitos vêem como tristeza, melancolia e sem vida, eu vejo descanso, renovação, o ganhar de forças para uma nova época.

Este ano vi neve pela primeira vez. Andei num nevão pela primeira vez. Não é tão mágico quando muitos carros já passaram e a neve começa a derreter, mas acordar de manhã e ver um manto branco a cobrir a rua dá uma sensação de paz incrível. Chamaram-me maluca por sair de casa de propósito para andar no meio do nevão; pois que chamem, pois a minha felicidade inocente é mais importante que a opinião de outrém.


Seis meses em Inglaterra


No dia 3 de agosto de 2016, por volta das 22h45 chegámos à casa da M*, a nossa primeira senhoria e mais tarde amiga em Norwich. Hoje, dia 3 de fevereiro de 2017 estou sentada a ver Blindspot na tv, com as nossas duas gatinhas, na sala da nossa terceira casa.

Os primeiros seis meses foram uma mistura de bom com mau. O primeiro mês foi passado na casa da M*; esta casa foi encontrada pela nossa amiga R* que já cá vivia. A M* é uma rapariga portuguesa do Norte que está em Norwich há quase dois anos. Viver com ela foi muito bom; ela sentia falta de amigos portugueses e nós não conhecíamos ninguém. Mais: é uma excelente rapariga, ficámos genuinamente amigos com ela.
O primeiro mês na casa da M* refletiu-se na procura de casa e na procura de trabalho do D*. As coisas entre nós não correram suavemente, especialmente com o stress de ele vir para o país sem trabalho e longe dos amigos e com a minha pressão para encontrar casa, mas quando encontrámos casa e tivemos uma conversa honesta sobre o que sentíamos, aliviando o mau ambiente e ultrapassando a primeira fase.



Segunda casa, meses dois a quatro. Apartamento no centro da cidade, dois quartos, duas casas de banho (a segunda é uma anedota mesmo), sala e cozinha numa só divisão. Não tinha internet quando entrámos, mas disseram-nos que a BT (semelhante à PT em Portugal) ia escavar a rua nas próximas semanas para passar as linhas. 
De setembro a dezembro foi o inferno, especialmente para o D* que depende de internet para tudo, principalmente trabalho. Imaginem-nos numa casa, sem internet, sem tv, em que todas as semanas mandávamos emails a perguntar sobre a internet, em que diziam sempre que estavam à espera da BT; escusado será dizer ao fim de umas seis semanas andávamos a trepar paredes, a discutir, sem dinheiro para mudar para outra casa, porque o depósito é algo bem puxado. 

No final de novembro, finalmente lançámo-nos na procura de casa, simplesmente não podíamos adiar mais, a situação tinha-se tornado insuportável, especialmente quando percebemos que a empresa que geria o bloco de apartamentos bem podia ser uma empresa fantasma. Procurámos, mas de forma diferente da primeira vez: já não tínhamos um prazo para encontrar, tínhamos tempo para não errar. Ao fim de algumas semanas encontrámos uma casa que gostámos bastante, fizemos a candidatura e aceitaram-nos. As minhas colegas diziam-me que esta era uma zona má para se morar, que há muitas casas da câmara municipal que por norma são dadas a pessoas com problemas de drogas e a quem tem baixo rendimento. Pronto, o medo instalou-se, mas fomos em frente, não havia como recuar; o que viesse, viria.



Desta vez as coisas com a agência foram completamente diferentes. Fizemos questão de procurar através de agências mobiliárias que não a do apartamento e o processo correu muito melhor e muito mais transparente, tudo 'by the book'. Não tivemos de pagar logo, a não ser as taxas da agência; só era necessário o dinheiro estar na conta no dia antes de nos mudarmos, o que seria o dia 5 de janeiro. Assinámos o contrato, que era de 20 páginas ao contrário do apartamento que era de 4p (só aí vê-se a diferença). acordámos datas e preparámo-nos para sair do inferno que aquele apartamento se tinha tornado. Demos a data de saída e uma nova tormenta começou: não nos iam devolver o depósito. Procurámos ajuda legal e não havia nada que pudéssemos fazer porque nós tínhamos o dever de ficar seis meses na casa e eles tinham o dever de ter protegido nosso depósito através de um dos esquemas legais do governo britânico. Só dores de cabeça e desespero com aquele apartamento. 

Chegou dia 5 de janeiro e mudámo-nos para a nossa casa atual. Casa térrea, sala, sala de jantar, cozinha, quintal, três quartos e duas casas de banho com banheira. E o mais importante de tudo: internet e aquecimento central (algo que o apartamento também não tinha). A casa não tem mobília, mas para nós não tem importância; temos colchão e todas as coisas de cozinha. Claramente que em um mês já adquirimos mobília: mesa de jantar e cadeiras, duas camas e uma estante que é o meu móvel da Nespresso (trouxe-a de Portugal). Dentro em breve iremos ao IKEA para adquirir mais mobília. 



Nem tudo foi mau, embora como mudámos de casa esteja com aquela sensação de recomeço.
Já tivemos visitas de Portugal, fizemos amigos, fomos a Portugal duas semanas passar o Natal e Ano Novo, já temos internet o que nos permite muita coisa, e adotámos duas gatinhas esta semana!

Uma das razões pelas quais quisemos esta casa foi por permitir animais, o que nos alegrou muito, porque saudades das minhas gatas não me faltam. São duas irmãs, mas mais sobre isso mais tarde.

A falta de internet justifica em parte a minha ausência da blogosfera. Foram muitos meses a aceder à internet apenas nos momentos em que estava no autocarro, ou num dos vários free wifi spots da cidade. Escrever textos enormes no telemóvel não me agrada. Além disso, o espírito não era o melhor, por isso não me apetecia nada andar por cá. 

Vou tentar vir cá mais vezes, até porque quero atualizar este blog, voltar à blogosfera, e manter este hobbie. 
















Christmas in Norwich

Chegou uma das minhas alturas favoritas do ano: época natalícia. Aqui não brincam em serviço e é música, decorações, peças de teatro, dias específicos para usar blusas de Natal nos trabalhos, cânticos de Natal. Bem, é um pouco de tudo!